Durante décadas, a Barbie nos mostrou que poderíamos ser qualquer coisa:
Médica
Astronauta
Engenheira
Cientista
Pilota de avião
Veterinária
CEO.
Cada nova profissão reforçava a mesma mensagem: não existiam limites para o que uma menina poderia sonhar. E isso é poderoso.
Crescemos vendo mulheres ocupando espaços que, por muito tempo, pareciam impossíveis. Hoje, felizmente, também celebramos quando uma mulher se torna desenvolvedora, fundadora de uma startup, diretora de tecnologia ou líder de uma equipe.
Ainda precisamos abrir muitas portas, e continuar incentivando mulheres a ocupar esses lugares faz parte da missão da WomakersCode.
Mas, olhando para trás, percebo que existe uma pergunta que quase nunca nos ensinaram a fazer.
Quem somos quando tiramos o nosso crachá?
No início do ano passado, precisei parar.
Na verdade, meu corpo fez uma escolha que eu vinha adiando havia muito tempo. Depois de meses tentando dar conta de tudo, ignorando sinais de exaustão e acreditando que “só mais essa semana” resolveria as coisas, veio o diagnóstico: burnout.
Precisei me afastar do trabalho e, pela primeira vez em muitos anos, fiquei sem aquilo que organizava os meus dias. As reuniões desapareceram da agenda, as notificações diminuíram e, de repente, eu já não sabia muito bem o que fazer comigo mesma.
Achei que o mais difícil seria descansar, mas descobri que a parte mais difícil era responder a uma pergunta muito mais profunda:
Quem eu era, se naquele momento eu não podia trabalhar?
Enquanto tentava encontrar essa resposta, percebi que havia me afastado de muitas outras partes da minha vida. Fazia tempo que eu não dedicava atenção à minha família, encontrava meus amigos cada vez menos e deixava meus hobbies sempre para depois. Tudo parecia girar em torno da próxima entrega, da próxima reunião ou da próxima meta. Sem perceber, eu havia permitido que o trabalho ocupasse um espaço que nunca deveria ter ocupado: o da minha identidade.
Foram meses de terapia até conseguir enxergar uma verdade que hoje parece simples, mas que, na época, mudou completamente a forma como eu me relacionava com a minha carreira: eu tenho uma profissão, mas não sou a minha profissão.
Quando a carreira deixa de ser apenas uma parte da vida
Durante esse processo, comecei a olhar para trás e perceber como eu vinha vivendo. No que eu investia minha energia? Sobre o que eu conversava quando encontrava meus amigos? O que ocupava meus pensamentos antes de dormir e, muitas vezes, até os meus sonhos?
A resposta era quase sempre a mesma: trabalho.
Eu acreditava que estava apenas construindo uma carreira. Mas, olhando em retrospecto, percebi que estava fazendo algo muito diferente. Meu humor dependia das minhas entregas, minha autoestima acompanhava o reconhecimento que eu recebia, meu senso de valor estava diretamente ligado ao meu desempenho profissional.
Foi então que compreendi que o burnout não havia começado quando eu adoeci. Ele começou muito antes, quando deixei que a minha vida profissional assumisse o protagonismo da minha vida.
Existe uma diferença enorme entre ter uma profissão e permitir que ela defina quem somos.
A armadilha que muitas mulheres conhecem
Quando comecei a compartilhar essa experiência, descobri que ela estava longe de ser uma exceção, principalmente entre mulheres na tecnologia.
Nós ainda crescemos aprendendo que precisamos provar competência o tempo inteiro. Em um mercado que muda rápido e onde ainda somos minoria em muitos espaços, parece que nunca basta fazer um bom trabalho. Sempre existe mais alguma coisa que deveríamos aprender, conquistar ou demonstrar.
Existe uma lista que parece nunca terminar:
Tem que estudar mais
acompanhar todas as tendências
conquistar novas certificações
construir autoridade no LinkedIn
estar disponível (e sempre com um sorriso no rosto)
entregar mais, errar menos.
tem que ser girlboss.
E, no meio de tantos “tem que”, quase nunca sobra espaço para simplesmente ser.
Sem perceber, começamos a acreditar que nosso valor cresce na mesma velocidade do currículo. E, quando toda a nossa energia está concentrada apenas na carreira, todas as outras partes da nossa vida começam a perder espaço. A família, os amigos, os hobbies, o descanso e até a nossa própria identidade passam a existir apenas quando sobra tempo. E quase nunca sobra.
Redescobrindo quem existia além do crachá
Depois de duas semanas afastada (que mais pareceram dois meses) percebi que eu precisava mudar muito mais do que a minha rotina. Precisava mudar a forma como me relacionava com o trabalho.
A terapia foi fundamental nesse processo. Foi ali que aprendi que estabelecer limites não era falta de comprometimento, mas uma forma de cuidar da pessoa que existia antes da profissional.
Comecei a respeitar meu horário de trabalho. Passei a fazer pausas reais para o almoço, longe do notebook. Parei de normalizar jornadas que invadiam noites, finais de semana e feriados. Pode parecer pouco, mas, quando você vive há tanto tempo dentro da lógica da produtividade constante, pequenas mudanças representam grandes rupturas.
A transformação mais importante, no entanto, aconteceu fora do expediente.
Voltei a ler sem pensar se aquilo agregaria ao meu currículo, escrevi porque simplesmente gosto de escrever, passei mais tempo com minha família e meus amigos, montei quebra-cabeças, assisti a séries e retomei o trabalho voluntário. Aos poucos, fui reencontrando partes de mim que tinham ficado escondidas atrás de um crachá.
Pela primeira vez em muitos anos, meu tempo livre não tinha o propósito de produzir. Tinha apenas o propósito de me devolver para mim mesma.
Algum tempo depois, percebi que a cultura da empresa onde eu trabalhava já não fazia sentido para a vida que eu queria construir. Pedi demissão. Não porque essa seja a resposta para todas as pessoas (ela não é). Eu reconheço que estava em uma posição de privilégio e pude fazer essa escolha. Mas, para mim, ela fez parte do processo de reconstrução.
Passei a me fazer perguntas que nunca tinham ocupado espaço na minha rotina: o que eu faria se isso nunca pudesse aparecer no meu currículo? Do que eu sinto orgulho além do trabalho? Quem me conhece fora do ambiente profissional?
As respostas não apareceram de uma vez. Até hoje, elas continuam sendo construídas todos os dias. Mas uma certeza permanece comigo desde então: nenhuma carreira deveria exigir que eu abra mão de quem sou para fazê-la dar certo.
Você é muito mais do que uma carreira
Lembre-se sempre que seu valor não começa em um cargo nem termina quando ele muda.
Porque cargos mudam.
Empresas mudam.
Tecnologias mudam.
Mas quem você é, permanece. 💜
Não há força mais poderosa do que uma mulher determinada a crescer. Vamos juntas! 🦋
Conecte-se com a gente e faça parte da comunidade:
Canal do Whatsapp • Instagram • Grupo de LinkedIn • Cursos Gratuitos • Doar
Sua sugestão pode virar conteúdo! Queremos te ouvir 😄



